quinta-feira, 21 de abril de 2011

A hibridação e sua família de conceitos

 A importante historia de fusões entre indígenas, latinos e europeus, requer utilizar a noção de mestiçagem tanto no sentido biológico, como cultural mistura de hábitos, crenças e formas de pensamento europeu com os originários das sociedades americanas. Não obstante, esse conceito é insuficiente para nomear e explicar as formas mais modernas de interculturalidade.

 A cor da pele e os traços físicos pesam na construção habitual da subordinação para discriminar índios, negros ou mulheres. Entretanto nas ciências sociais e no pensamento político democrático, a mestiçagem situa-se atualmente na dimensão cultural das combinações identitárias, a questão é abordada como projeto de formas de convivência multicultural moderna, embora estejam condicionadas pela mestiçagem biológica.

Algo semelhante ocorre com a passagem das misturas religiosas as fusões mais complexas de crenças, assim como no caso do sincretismo.

A palavra hibridação aparece mais maleável para nomear não só as combinações de elementos étnicos ou religiosos, mas também a de produtos das tecnologias avançadas e processos sociais modernos ou pós modernos.


Onde é seu nascedouro:

Fronteiras: As cidades, locais da hibridação – destaco as fronteiras entre países e as grandes cidades como contextos que condicionam os formatos, ou estilos e as contradições específicas da hibridação. A hibridação ocorre em condições históricas e sociais específicas, em meio a sistemas de produção e consumo que as vezes operam como coações. As megalópoles multilíngües e multiculturais, são estudadas como outros em que a hibridação fomenta maiores conflitos e maior criatividade cultural. Exílio e migrações também.

Referencias bibliográficas: CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas. São Paulo: EDUSP, 2008.Introdução à Edição de 2001. As Culturas Híbridas em Tempos de Globalização.(pp.XVII-XL).

As culturas híbridas em tempos de globalização


 Hibridação: Processos sócio-culturais nos quais estruturas ou praticas discretas que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas.

Ciclos de hibridação: Forma de descrever o transita do discreto ao híbrido, segundo o qual, na história, passamos de formas mais heterogêneas a outras mais homogêneas, e depois a outra relativamente mais hetereogeneas, sem que nenhuma seja “pura” ou plenamente homogênea.
O hibridismo, neste contexto, não é infecundo, trata-se de uma crença do século XIX, quando a hibridação era considerada com desconfiança ao supor que prejudicaria o desenvolvimento social.

 Como a hibridação funciona (mecanismo):
É preciso fundir estruturas ou praticas sociais discretas para gerar novas estruturas práticas; As vezes isso ocorre de modo não planejado ou é resultado imprevisto de processos migratórios turísticos e de intercambio econômico ou comunicacional. Mas freqüentemente a hibridação surge da criatividade individual e coletiva. Não só nas artes, mas também na vida cotidiana e no desenvolvimento tecnológico. Busca-se reconverter um patrimônio (uma fabrica, uma capacitação profissional, um conjunto de saberes e técnicas) para reinseri-lo em novas condições de produção e mercado. Ex: migrantes camponeses que adaptam seus saberes para trabalhar e consumir na cidade ou que vinculam seu artesanato a usos modernos para interessar compradores urbanos.
A análise empírica dos processos de hibridação, articulados com estratégias de reconversão, demonstra que a hibridação interessa tanto aos setores hegemônicos como aos populares que querem apropriar-se dos benefícios da modernidade.
Esses processos nos levam a relativizar a noção de identidade. A ênfase na hibridação não está em se estabelecer identidades “puras” ou “autênticas”. Põe em evidencia o risco de delimitar identidades locais que tentem afirmarem-se como radicalmente opostas à sociedade nacional ou a globalização. Quando se define uma identidade mediante um processo de lembrança de traços (língua, tradições, condutas estereotipadas) frequentemente se tende a desvincular essas praticas da historia de misturas em que se formaram. Em conseqüência, é absolutizado um modo de entender a identidade e são rejeitadas maneiras heterodoxas de falar a língua, fazer a musica ou interpretar as tradições, obturando a possibilidade de modificar a cultura e a política.
A historia dos movimentos identitários revela uma serie de operações de seleção de elementos de diferentes épocas articulados pelos grupos hegemônicos em um relato que lhes dá coerência, dramaticidade e eloqüência.
Em um mundo tão fluidamente interconectado, as sendimentações identitárias organizadas em conjuntos históricos mais ou menos estáveis (etnias, nações e classes) se reestruturam em meio a conjuntos interetnicos, transclassistas e transnacionais. As diversas formas em que os membros de cada grupo se apropriam dos repertórios heterogêneos de bens e mensagens disponíveis nos circuitos transnacionais geram novos modos de segmentação. Estudar processos culturais serve para conhecer formas de situar-se em meio a heterogeineidade e entender como se produzem as hibridações.

Ação:
Os estudos sobre hibridação costumam limitar-se a descrever misturas interculturais. Mal começamos a avançar; como parte da reconstrução sociocultural do conceito, para dar-lhe poder explicativo: estudar os processos de hibridação situando-nos em relações estruturais de casualidade. E dar-lhe capacidade de analisá-lo de forma coerente: torná-lo útil para interpretar as relações de sentido que se reconstroem nas misturas.

Objeções:
Objeções formuladas do conceito de hibridação e que pode sugerir fácil integração e fusão de culturas, sem dar suficiente peso às contradições e ao que não se deixa hibridar.

É possível que se tenha uma visão “otimista” das hibridações. Justamente ao passar do caráter descritivo da noção de hibridação – como fusão de estruturas discretas – a elaborá-la como recurso de explicação, advertimos em que caso as misturas podem ser produtivas e quando geram conflitos devido aos quais permanece incompatível ou inconciliável com as praticas reunidas. Para entendermos as estratégias de entrada e saída da modernidade tentando se falar da hibridação como um processo ao qual é possível ter acesso e que se pode abandonar, do qual podemos ser excluídos ou ao qual nos podem subordinar, entendemos as posições dos sujeitos a respeito das relações interculturais. E assim se trabalhariam os processos de hibridação em relação à desigualdade entre as culturas com a possibilidade de apropriar-se de varias simultaneamente em classes e grupos diferentes e portanto, a respeito das assimetrias do poder e do prestígio. A hibridação, como processo de interseção e transações, e o que torna possível que a multiculturalidade evite o que tem de segregação e se converta em interculturalidade.
As políticas de hibridação serviram para trabalhar democraticamente com as divergências, para que a história não se reduza a guerras entre culturas. Podemos escolher viver um estado de guerra ou em estado de hibridação.

Referencias bibliográficas: CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas. São Paulo: EDUSP, 2008.Introdução à Edição de 2001. As Culturas Híbridas em Tempos de Globalização.(pp.XVII-XL).

Que "negro" é esse na cultura negra? - Resumo



Atualmente, o modelo cultura, baseia-se em três grandes eixos conjunturais:

·                      Deslocamento dos modelos europeus de alta cultura, enquanto sujeito universal da cultura;
·                      Surgimento dos EUA como potencia mundi global e consequentemente como centro de produção e circulação global de cultura. Sua cultura de massa mediada pela imagem e formas tecnológicas;
·                      Descolonização do 3º mundo (impacto dos direitos civis e as lutas negras pela descolonização das mentes dos povos).

As qualificações que tornam o momento presente tão peculiar são:

·          A relação ambivalente dos EUA com a alta cultura européia e a ambiguidade da relação dos EUA com suas próprias hierarquias étnicas internas. A bem pouco tempo a Europa Ocidental não tinha ou reconhecia que tivesse. Os EUA sempre tiveram uma série de etnicidade e conseqüentemente, a construção de hierarquias étnicas sempre definem suas políticas culturais. E dentro deste deslocamento silencioso estava à própria cultura popular americana que silenciada às tradições vernaculares (da própria região) da cultura popular negra americana;

·          A natureza do período de globalização cultural atualmente em processo. O pós modernismo desenvolve-se de forma desigual como um fenômeno onde os antigos centros da alta modernidade reaparecem consistentemente. É impossível rejeitar uma culinária étnica pós-moderna sem um toque global, o que se pode chamar de dominante cultural. Só mesmo o modernismo nas ruas como forma de uma importante oportunidade estratégica para a intervenção no campo da cultura popular

·          Profunda e ambivalente fascinação do pós modernismo pelas diferenças sexuais, raciais, culturais e, sobretudo étnicas em total oposição a cegueira e hostilidade que a alta cultura européia demonstrava pela diferença étnica. Não há nada que o pós modernismo global mais adore do que um toque de etnicidade, um sabor “exótico”. Esse primitivismo, administrado pelo modernismo via uma sensação de retorno do estranho familiar e marca o surgimento ambíguo da etnicidade no âmago do pós moderno global.

Dentro da cultura, a marginalidade, embora permaneça periférica em relação ao popular, nunca foi um espaço tão produtivo quanto tem sido não por uma abertura dos dominantes à ocupação dos de fora é resultado de políticas culturais da diferença, da luta em torno de novas identidades e do aparecimento de novos sujeitos em cenário político e cultural. Isso vale não somente para raças, mas também para outras etnicidades marginalizadas (feministas, gays, lésbicas etc) como resultado de um novo tipo de política cultural. As diferenças entre o erudito e o popular é o que o pós moderno global está deslocando. A hegemonia cultural não se trata da vitória ou dominação pura, não é um jogo de “perde e ganha”, sempre tem a ver com a mudança no equilíbrio de poder nas relações de cultura.

Existe uma atitude do tipo “nada muda, o sistema sempre vence”, mas estratégias culturais capazes de efetuar diferenças e de deslocar as disposições do poder existem, apesar dos espaços “conquistados” para a diferença são poucos, dispersos e cuidadosamente policiados, regulados e segregados, a fim de que mantenham a invisibilidade. Mas simplesmente menospreza-la, chamando-a de “o mesmo”, não adianta. Depreciá-la desse modo reflete meramente o modelo específico das políticas culturais ao qual continuamos atados, precisamente o jogo da inversão.

O pós moderno representa uma abertura ambígua para a diferença e para as margens e faz com que um certo tipo de descentramento da narrativa ocidental torne-se provável, ele é acompanhado por uma reação que vem do âmago das políticas culturais: 

·          A resistência agressiva à diferença; a tentativa de restaurar o cânone da civilização ocidental;
·          O ataque direto e indireto ao multiculturalismo;
·          Retorno às grandes narrativas da historia, da língua e da literatura (os três grandes pilares da sustentação da identidade e das culturas nacionais);
·          A defesa do absolutismo ético;
·          E as novas xenofobias que estão prestes a subjulgar a Europa. Parte do problema é que temos esquecido que tipo de espaço é o da cultura popular. Parece que a dialética acabou.

 A cultura popular carrega um peso provindo da palavra “popular”, que tem suas bases em experiências, prazeres, memórias e tradições do povo. Tem ligações com as esperanças e aspirações locais, tragédias, cenários e praticas da experiência cotidiana de pessoas comuns ligando-se ao que Bakhtin chama de “vulgar” – o popular, o informal, o lado inferior, o grotesco – eis porque foi contraposta a cultura de elite. Mas este cabo de guerra não é importante. O papel do popular na cultura popular é o que fixa as autenticidades das formas populares, enraizando-as nas experiências das comunidades populares das quais elas retiram o seu vigor permitindo vê-las como expressão de uma vida social subalterna específica, que resiste a ser constantemente reformulada enquanto baixa e periférica. Ela hoje está tornando-se a forma dominante da cultura global. Ela é o espaço de homogeinização em que o estereótipos e as formulas processam as experiências trazidas dentro de sua rede. Espaço onde narrativas e representações passam para as mãos das burocracias culturais estabelecidas às vezes até sem resistência, disponível para expropriação. Isso é inevitável e necessário para todas as culturas do mundo moderno.
Por definição a cultura negra é um espaço contraditório. É um local de contestação estratégica, mas nunca pode ser explicada ou simplificada em simples oposições binárias.
Não importa o quão deformadas sejam as formas como os negros e suas tradições/comunidades sejam representadas na cultura popular, continuamos a ver nessas figuras aos quais a cultura popular recorre, as experiências que estão por trás delas. Em sua expressividade, musicalidade, etc. Elas trazem outras formas de vida.

Três comentários pertinente para desenvolver o argumento:

1.        Observe como dentro do repertório negro o estilo – que os críticos culturais da corrente dominante muitas vezes acreditam ser uma simples casca tornou-se matéria do acontecimento;
2.        Deslocados de suas próprias noções de verdadeiro e falso  domínio da escrita, o povo da diáspora negra tem encontrado em oposição a tudo isso, a estrutura profunda de sua vida cultural na musica;
3.        Como essas culturas tem usado o corpo como se ele fosse, e muitas vezes foi, o único capital cultural que tinham.

Existem aqui questões profundas de transmissão de herança cultural das origens africanas e as disperssões irreversíveis da diáspora. Esses repertórios, uma vez excluídos da corrente cultural dominante – eram os únicos espaços performáticos restantes que foram sobre determinados de duas formas:
1.        Parcialmente por suas heranças;
2.        Determinado criticamente pelas condições diaspóricas nas quais as conexões foram forjadas. A apropriação seletiva de ideologias, culturas e instituições européias, conduziram a inovações lingüísticas na estilização retórica do corpo, as formas de ocupar um espaço social alheio, expressões potencializadas, estilos de cabelo, posturas, gingados, maneiras de falar, bem como meios de constituir e sustentar o companheirismo e a comunidade.

 Negros constituídos a partir de duas direções conferencias de mais de uma tradição cultural, resignificando a partir de materiais pré-existentes. Formas híbridas de uma base vernacular. Elas não são a recuperação de algo puro pelo qual podemos nos orientar, são adaptações conformadas a espaços híbridos da cultura popular.
Essa marca da diferença dentro das formas da cultura popular aparecem como impuras e ameaçadoras pela agregação ou exclusão é carregada pelo significante “negro” na expressão cultura popular negra. Ela chegou a significar a comunidade negra onde se guardam as tradições e cujas lutas sobrevivem na persistência da diáspora. A “boa” cultura popular passa no teste de autenticidade, que é a referencia à experiência negra e de sua expressividade. Serem como garantias para determinar o que é ou não cultura negra.
Esse momento essencializa as diferenças em vários sentidos. Enxerga a diferença como “as tradições deles versus as nossas”, de uma forma excludente. O que esse movimento burla é a essencialização da diferença dentro das duas oposições mútuas ou/ou. Seria uma lógica diferente da diferença, ou seja o “ou” permanente é um local de contestação constante quando o propósito da luta deve ser substituir o “ou” pelo “e”. Posso ser negro e Britânico. Isso não esgotam todas as suas identidades.
O momento essencializante é fraco porque confunde o que é histórico e cultural do que é biológico e genético. No momento em que o significante “negro” é arrancado de seu encaixe histórico, cultural e político, e é alojado em uma categoria racial, valorizamos pela inversão a própria base do racismo que estamos tentando desconstruir. A discussão não é somente se algo é negro ou não é puro ou impuro. E como se pudéssemos traduzir a natureza em política usando uma categoria racial.
O negro só precisa ser e não confirmar quem é através do externo (política de representação). Negro não é na realidade nada que está rotulado por aí. É a diversidade e não a experiência que devemos dirigir nossa atenção criativa, não somente para apreciar diferenças históricas e experiências entre comunidades, regiões e diásporas mas reconhecer outros tipos de diferenças que se localizam na cultura do povo negro.
Em resumo, não é apenas uma viagem de redescoberta: é uma produção. Tem sua matéria-prima, seus recursos, seu “trabalho produtivo”;
Estamos sempre em processo de formação cultural. A cultura não é uma questão da natureza do ser, mas de se tornar;
A globalização vem elucidando as trevas do próprio “iluminismo” ocidental. As identidades, concebidas como estabelecidas e estáveis, estão “naufragando nos rochedos de uma diferenciação que prolifera”.
Há dois processos opostos em funcionamento nas formas contemporâneas de globalização; existem as forças dominantes que ameaçam subjulgar todas as culturas que aparecem, impondo uma mesmice cultural homogeinizada (seus efeitos podem ser vistos em todo o mundo); e os processos que sutilmente estão descentralizando os modelos ocidentais, levando a uma disseminação da diferença cultural em todo o globo;
A alternativa não é apegar-se em modelos fechados unitários e homogêneos de “pertencimento cultural”, mas abarcar os processos mais amplos – o jogo da semelhança e da diferença – que estão transformando a cultura do mundo inteiro. É o caminho da “diáspora”, que é a trajetória de um povo moderno e de uma cultura moderna.

Referencia bibliográfica: HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e mediações culturais. In. SOVIK, Liv (Org.) Belo Horizonte: Ed UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2003. Capítulo 3: Cultura Popular e Identidade. Que "negro" é esse na cultura negra, pp. 335-349.170

De Cultura para culturas



Somente nos anos vinte do século passado surgiram as rachaduras do conceito moderno de Cultura duramente atacada pela antropologia, filosofia, lingüística e principalmente a sociologia colocando em cheque a epistemologia monocultural. Esses e outros vertentes de estudo contribuíram para detonar o conceito moderno nos mostrar a produtividade de entendermos que é melhor falarmos de culturas em vez de falarmos em Cultura.
Este deslocamento conectado a crise da modernidade, se manifesta numa dimensão teórica, intelectual, mas nada reduzido à questão epistemológica. Tal deslocamento é inseparável de uma dimensão política em que se atuam forças poderosas em busca da imposição de significados e pela dominação material e simbólica. Se o monoculturalismo coloca ênfase no humanismo e na estética, o multiculturalismo muda a ênfase para a política. E se as atribuições de significados são, sempre e ao mesmo tempo, uma questão epistemológica e uma questão de poder, é fácil compreender o quanto tudo isso se torna mais violento quando se trata de significações no campo da cultura; justamente o campo onde hoje se dão os maiores conflitos, seja das minorias entre si, seja delas com assim chamadas maiorias.

Os defensores da monocultura defendem que é preciso procurar além das aparências, ir a fundo e encontrar a lógica única e o repertório comum de princípios, códigos e valores comuns a todas as culturas. Para esses, a universalidade não se dá nem nos detalhes, nem na imediatez da experiência, mas está no nível das generalizações. Mas cai por terra quando se procura por pelo menos um principio válido para todas as culturas. Mas também há um segundo argumento que diz que se não houvesse um denominador comum ou um princípio transcendente que funcionasse da mesma maneira em toda e qualquer cultura, não haveria como uma cultura se comunicar ou se diferenciar de todas as outras e nem tampouco sabermos se estamos diante de uma cultura.
Este é um argumento usado pelos anti-relativistas (essencialistas) em defesa de um suposto caráter universalista da cultura, assim como qualquer outro conceito que acharem conveniente universalizar, é um entendimento que dá suporte à noção de que existe uma essência na linguagem e conseqüentemente, uma essência por detrás dos conceitos, já que são “manifestações lingüísticas”. Exemplo disso seria a tradutibilidade, mesmo que parcial, seria uma prova empírica de que deve haver um ou alguns variantes supralinguisticos universais. Enquanto isso, essa dificuldade em conseguir uma tradução definitiva e plena decorreria somente de ruídos comunicacionais ou incompetências e imperfeições dessa ou daquela língua, a dificuldade não decorreria da linguagem por si, mas de um uso incorreto que fazemos da linguagem e este raciocínio pode ser estendido à cultura e para as relações interculturais. A questão da tradutibilidade não deve ser colocada a fim de buscar um elemento comum que possa servir de elo de compreensão para todas as linguagens e culturas. É a virada lingüística que modifica o entendimento tradicional da linguagem impossibilitando-a de fundamentá-la a lógica fora dela mesma saindo da metafísica lingüística para o mundo cotidiano. Não há outro mundo a sustentar aquilo que chamamos de cultura.
Ao invés de ser entendida como um calculo, a linguagem passa a ser entendida como um jogo, sempre contingente, por isso existe uma margem de indeterminação nas coisas ditas(pensadas) mas que abre a possibilidade para que sempre se continue a conversação. 

As conseqüências desta virada são enormes, estilhaçando e pluralizando não somente a linguagem, mas também a Cultura, nos levando a falar em linguagens e em culturas. Segundo Veiga, a epistemologia monoculturalista assume uma postura intelectual arrogante porque é única, de conteúdo determinável e, por isso, de cunho determinista, fazendo com que caiba a educação apenas dizer àqueles que estão entrando no mundo, o que é mesmo este mundo e como ele funciona ao contrário do multiculturalismo que humildemente assume que por mais que se fale nunca se saberá o que é mesmo este mundo nem como ele funciona. Não se pode pretender dizer , aos que estão entrando no mundo o que é o mundo; O que no máximo a multicultura pode fazer é mostrar como o mundo é constituído nos jogos de poder/saber por aqueles que falam nele e dele, e como se pode criar outras formas de estar nele. E ela se dá assim porque não temos nenhum lugar de fora dela para dela falar; estamos irremediavelmente mergulhados na linguagem e numa cultura, de modo que aquilo que dizemos sobre elas não está jamais isento dela mesma. Trata-se de uma virada porque justamente o que parecia tão problemático (o babelismo lingüístico) não passa de um estado do mundo, enquanto que aquilo que parecia ser o estado do mundo não passa de uma invenção de uma idéia um dia idealizada.

Referencia bibliografica:VEIGA-NETO, Cultura, culturas e educação. Revista Brasileira de Educação. ANPED, Mai/Jun/Ago, nº 23, 2003, pp.5-15

A cultura e a educação


Kant e outros intelectuais alemães unânimes em estabelecer um contraponto entre Cultura e civilidade, não entendendo cultura como resultado de um aperfeiçoamento da civilidade. Entender ou compreender o conceito de cultura é extremamente relevante, exemplo disto é o conceito de fundamentação do projeto de autoconsciência nacional germanica que lhe viria a se disseminar mundo a fora e teria desdobramento dramatico nos dois séculos seguintes. Assim sendo, fixa as três principais caracteristicas que cercam o conceito de cultura ao longo da modernidade:

  1. Seu carater diferenciador e elitista marcada pela supremacia e distinção dos intelectuais alemães;
  2. O carater único e unificador da Cultura. Ligado a isso está o papel da educação, que era a imposição de um padrão único disfarçado de humanismo universal, mas que na verdade era um padrão branco, machista, de forte conotação judaico-cristã, eurocentrico e de preferencia germânico. Desta maneira desenvolveu-se a idéia de uma escola única para todos (ideologia monoculturalista). Fato este que fez com que o Estado tomasse a escola como uma instituição ao seu serviço para que realizasse da maneira mais ampla e duradoura a tarefa de regular a sociedade. A educação escolarizada foi logo colocada a serviço de uma modernidade que deveria se tornar a mais homogenea e a menos ambivalente possível. De uma cultura universalista, em relação as demais manifestações e produções culturais dos outros povos que não passariam de casos particulares - como que variações em torno de um ideal maior e mais importante, ou simples imitações, ou degenerescências lamentáveis. (maxima isotropia). Significa o rebatimento de tudo e de todos a um mesmo; em termos culturais, significa uma identidade única e a rejeição de toda e qualquer diferença;
  3. Carater idealista de cultura. Atualizando a doutrina Platonica dos dois mundos impregnando o entendimento moderno do que se deve ser uma (verdadeira) teoria da educação alimentando a busca de uma sociedade cuja "perfeição ainda não se encontra na experiência". Esse idealismo foi e é uma condição necessaria para se acreditar na possibilidade e desejabilidade de uma cultura única e universal.
 
  
Referencia bibliografica:VEIGA-NETO, Cultura, culturas e educação. Revista Brasileira de Educação. ANPED, Mai/Jun/Ago, nº 23, 2003, pp.5-15

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Cultura


Ao longo de dois ou três, séculos a modernidade não questionou seriamente os conceitos de cultura e educação. Ela foi conceituada atravéz de um senso comum, que designaria o conjunto de tudo aquilo que a humanidade havia produzido de melhor - fosse arte, ciência, literatura etc. Foi durante muito tempo pensada como única e universal. Jamais debatida e analisada. Sendo assim, a educação foi eleita como o caminho para se atingir as formas mais elevadas da cultura, tendo por modelo as conquistas ja realizadas pelos grupos sociais mais educados e, por isso, mais cultos.

No seculo XVIII, intelectuais alemães passaram a chamar sua própria contribuição a humanidade em termos de maneiras de estar no mundo, sistemas religiosos e filosoficos etc principalmente todo aquele conjunto de coisas que eles consideravam superiores e que os diferenciava do resto do mundo de "Kultur". A Cultura passou a ser escrita com letra maiuscula e no singular. Maiuscula porque era vista ocupando um status muito elevado; e no singular porque era entendida como unica. E se era elevada e única, foi logo tomada como modelo a ser atingido pelas outras sociedades. Nasce uma cisão: a alta cultura, que passou a funcionar como um modelo sinônimo daqueles "homens que ja tinham chegado lá". E a baixa cultura, a cultura daqueles menos cultivados e que por isso "ainda não tinham chegado lá". E desta diferenciação ocuparam-se alguns pedagogos que vêem a educação como o  caminho para a elevação cultural de um povo. O que reforça a idéia de conceito de cultura como um elemento de diferenciação assimetrica e de justificação para a dominação e a exploração.

Haviam debates que definiriam quais os marcadores culturais de cada grupo a cada momento.
No periodo Renascentista, deslocaram a enfase da dimenssão divina do homem para a dimenssão humana e a cultura serviu como uma morada capaz de conferir ao homem um sentido de pertença que o mesmo achava haver perdido.

Referencia bibliografica:VEIGA-NETO, Cultura, culturas e educação. Revista Brasileira de Educação. ANPED, Mai/Jun/Ago, nº 23, 2003, pp.5-15

Cultura, cultura e educação

Cultura e educação são binomios de infinitos sentidos. Nas ultimas décadas chega a ficar mais visivel as diferenças culturais e igualmente fortes os embates sobre a diferença e entre os "diferentes". Seja quando a opressão de alguns sobre os outros, seja na busca da exploração economica e material, seja nas praticas de dominação e imposição de valores, significados de um grupo sobre os demais.
A relação entre cultura e educação é o eixo dos embates transformando, neste contexto, a pedagogia (que é o campo dos saberes) e a escola (instituição) em arenas onde ocorrem choques teóricos e práticos sobre o assunto.
Observa-se um crescente interesse pelas questões culturais em todas as esferas ganha relevancia para pensar o mundo e validando que ela perpassa por tudo o que acontece em nossas vidas e todas as representações que fazemos desses acontecimentos.
Estar atento o quanto estamos sendo levados a participar ativa ou passivamente do "jeito americano de viver". É preciso discutir, problematizar essa questão para sabermos o que os outros e nós estão falando e para onde essas questões podem nos levar, o que estão fazendo de nós mesmos.
Desnaturalizar os fenomenos sociais e encara-los como históricamente construidos, é o primeiro passo para se intervir nesses fenômenos, mesmo que insuficientemente, porem assim subverteremos o que somos e o que fazemos.


Referencia bibliografica:VEIGA-NETO, Cultura, culturas e educação. Revista Brasileira de Educação. ANPED, Mai/Jun/Ago, nº 23, 2003, pp.5-15